quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

recordando nise da silveira

RECORDANDO NISE DA SILVEIRA

Jorge Bichuetti

Um dia, indagaram?

- A loucura se cura?

Ela, serenamente, respondeu:

- “Até certo ponto. Um burocrata que se cure não voltará ser burocrata. Ser burocrata é próprio para enlouquecer”.

Sabia assertiva. A burocracia é um papel que restringe a potência de vida e enlouquece. Ela se constitue fragmentando o homem. As mãos executam, repetindo normas... E, principalmente, as mãos executam alienadas do cérebro e do coração. Repetem... Já não criam, nem sentem...

O cotidiano nos revela: quão enlouquecido é a vida de povo dominado por burocratas, e, quanto, os burocratas se desgastam na questão dos interesses alheios... Com suas mãos que já se acomodaram a não pensar, a não solucionarem as lágrimas dos aflitos do caminho, eles apenas encarnam as mãos dos poderosos, o carimbo da opressão.

***

A loucura permanece como um enigma. Quiseram, certa vez, que ela se manifestasse, e com este intento, perguntaram:

- E então, qual é o conceito de loucura?

“E daí que as pessoas são diferentes? Se todos fossem quadrados, não haveria a menor graça. Entre um canto de galo e as buzinas dos automóveis, louco é quem prefere o barulho de buzina. Este bem poderia ser um teste para neuróticos graves”.

Nise da Silveira - pioneira da luta antimanicomial - consegue nos fazer pensar... Com doçura, ela fala da loucura em que vivemos e dos encantos da vida que deixamos à margem do caminho.

Vivemos mergulhados na confusão de um mundo insípido... abandonamos o sonho. O desejo de um mundo novo, justo e solidário; um mundo de paz...

Como disse um de seus usuários, explicando porque via navios no morro: “Ora, ora, navios entre estrelas”.

Ave, Nise da Silveira! Ela e sua história. Uma vida dedicada aos ditos loucos. Uma vida longe... longe das armadilhas, das artimanhas da dominação dos burocratas, das capitalistas... Longe do oficial enquanto ofício de exterminar o direito a vida. Ela onde brilha a estrela...

2 comentários:

Erika disse...

Suavidades para essa nova potência, semente de fortes conexões. Com ternura, Erika Riani

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

tudo que fazemos e vivemos, vivemos e fzemos, poque cremos na força da ternura , da sua ternura... Na potência da vida que emerge dos bons encontros; na alegria que fui da solidariedade... O resto é silêncio...
Sou feliz, por tê-los.
Não sou... além do que se é quando se conquista um amigo.
abraços jorge