quarta-feira, 20 de outubro de 2010

MESTRES DO CAMINHO: CLARICE LISPECTOR

Clarice Lispector

Precisão

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.



Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir 


13 comentários:

Prosa e Verso disse...

Jorge, vc já leu "Água Viva" da Clarice?
Vale ler, é belíssimo...
Bjoca, Andréia

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Andréia, ainda não... Lerei. Acho-a, apaixonante.
Se você tiver algum texto dela sobre o ser mulher... me envie. Abraços, e também me envie coisas suas: textos, poemas, depoimentos, ensaios... Meu anjo da poesia que voa entre as cores das bolhas de sbão dos sonhos dos meninos que vivem em todos nós. beijos jorge

Bruno Costa disse...

Bela poesia, como sempre vemos por aqui. Ela vive! E como disse Rubem Alves, "Deus mora na saudade".
Abraço!

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Bruno, bela poesia, sim... Me encantou... A vida fica muito árida quando s´´o a razão fala matemática e calculista... E como me faz bem recordar Rubem alves: na saudade moram o que o nosso coração presentifica para além das cordas e ponteiros do relógio.
Um carinhoso abraços jorge

betezuza disse...

Oi Jorge, queria tanto te encontrar para fumar ouvir musica e jogar conversa fora, ou sei lá, jogar o corpo em uma boate gay, mas voce estgá me esnobando...
adorei a poesia, uma verdadeira prece. estou encantada
bjs

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Nego, Bete... Não te esnobo, porque te necessito,nesta solidão que vai corroendo as vísceras, e só os sonhos com muita resistência persistem., como?.. Não sabia que você ia ficar no início da semana, e o meu fim de semana foi de escravo.
Hoje, que Fátima me disse...
Tenho labutado, sonhado... porém, com muita saudade de você e de o que podemos trocar numvôo tão passado-presente-futuro( kairós).
A poesia foi pura fala expontânea do meu coração.
Se você for ficar amanhã, me liga: 99718915.
Só os amores que eu mantenho no coração me sustentam vivo.
Te adoro. jorge

Samara disse...

"É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo. Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas estou tão pouco preparada para entender. Mas como faço agora? Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê.

(...)

Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.

(...)

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar".

Clarice Lispector
Paixão Segundo GH

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Santa clarice! que ilumina nossas emoções confusas e nos permite nos aceitar humanos. beijos jorge

Samara disse...

"Escuta. Eu estava habituada somente a transcender. Esperança para mim era adiamento. Eu nunca havia deixado minha alma livre, e me havia organizado depressa em pessoa porque é arriscado demais perder-se a forma. Mas vejo agora o que na verdade me acontecia: eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenas o futuro, eu acreditava tão pouco no que existe, que adiava a atualidade para uma promessa e para um futuro. Mas descubro que não é sequer necessário ter esperança."

"...eu quero a atualidade sem enfeitá-la com um futuro que a redima, nem com uma esperança – até agora o que a esperança queria em mim era apenas escamotear a atualidade."

"...prescindir da esperança – na verdade significa ação, hoje."

"...prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida."

Clarice Lispector
Paixão Segundo GH

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Samara, a Clarice vibra e pulsa, irradiando vivências que nos aproximam de nós mesmo e do humano demasiado humano, de nossas vidas. jorge

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Samara, anjo protetor das canções que anhecem a vida e das palavras que estrelam o destino. te adoro. jorge

Prosa e Verso disse...

Jô, enviei um cadinho de Clarice p seu email. Bjoca, Dé

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Attiê, pássaro encantado, Obrigado por todas Clarices...
há uma que para mim é mais bela:
uma de prosa e verso...
uma clara amiga and-adeira... Ladeira e céu , nelas se confundem, pois é ave-pássaro de cantar suave e meigo e de louvores altivos e pios...
Beijos jorge