quarta-feira, 3 de novembro de 2010

DIÁRIO DE BORDO: NESTE INSTANTE...

                                                                    JORGE BICHUETTI

O intelectual orgânico de Gramsci pensava, pois o compromisso social se realizava como apêndice do partido...
Sartre, inquieto e virulento, não se acomodou com a resignação diante da angústia e do nada, propositivo, gerou um caminho de vida: engajamento e compromisso social...
Somos corresponsáveis pelo mundo que construímos com nossas ações ativas ou com nossas omissões passivas...
Tecemos a acomodação que perpetua a opressão, ou a resistência que fomenta a mudança...
Somos co-autores da história...
Assim, vejamos...
                                                          ***
Neste minuto, uma garota de 10 anos, numa praia brasileira, sofre abuso sexual, vítima da prostituição infantil...
Neste minuto, um menino de 8 anos se intoxica numa carvoeira, vítima da exploração do trabalho infantil...
Neste minuto, um jovem trabalhador que sustenta seus 6 filhos e a esposa enferma. morre de bala perdida, vítima da violência urbano e da guerra do trãfego...
Neste minuto, uma mulher de olhos envergonhados e mãos calosas pelo trabalho doméstico, medica seus hematomas, vítima da violência doméstica...
Neste minuto, um velho de andar cansado é institucionalizado num asilo, vítima do abandono familiar...
Neste minuto, um trabalhador perde o braço numa fábrica, vítima da exploração capitalista que sustenta a insegurança no trabalho...
Neste minuto, um garotão corre pelas ruas de uma cidade, intoxicando o ar e agravando o aquecimento global, e o planeta sofre, vítima da negligência com a ecologia...
Neste minuto, a desnutrição, a tuberculose, a diabete, as queimadas, os agrotôxicos, os impostos elevados, a falta de saneamento, os lixões fazem suas vítimas...
Uma árvore cortada...
Um animal maltratado...
Um homem desempregado...
Um jovem sem sonhos...
Uma criança esquecida...
Uma vida ferida...
Neste minuto, a exploração, a opressão, a exclusão e a mistificação fazem suas vítimas...
E nós, que fazemos?
                                                                 ***
Pensando este  mundo, disse  Subcomandante Marcos: " A humanidade, assim como o coração, prefere o lado esquerdo. Não é necessário conquistar o mundo. Basta fazê-lo novo. Hoje, Nós."

6 comentários:

Marta Rúbia de Rezende disse...

Vc fez uma lista para acordar. "Poeta do finito e da matéria".

Está certo o Sartre na afirmação do engajamento, do compromisso.
Porém, creio que o compromisso não é por causa do nada (Sartre) e sim por causa de tudo (Bergson). Tudo que é vivo é presença, constante invenção, autocriação contínua.

"– Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?"

Tão belo o seu texto de hoje. Me trouxe nada menos que Drummond e Bergson. E também me acordou. Como acordou! Obrigada.

Beijo Jorge da
Marta

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Marta, estou de acordo: o novo e a revolução, a atualização do virtual se dá por afirmação...
O medo do nada o levou a ser afirmativo... Ou a angústia do nada... Foi inovador: rasgou o céu e viu que o céu se pode tomar de assalto... abraços . beijos jorge

Maria Alice disse...

Talvez estejamos procurando o que Sócrates pediu na prece de Feldro, quando disse: “... ajudai-me a buscar a beleza interior e fazei com que as coisas exteriores se harmonizam com a beleza espiritual”, ou talvez estejamos em busca do que todo mundo chama de valor.
Dr. Jorge, este levantamento da situação do planeta, tão bem descrito “Neste instante” podemos considerar como de emergência para uma situação de emergência.
Carinhoso abraço
maria alice

A verdade é que, depois de séculos de
modernidade, o vazio do futuro não pode
ser preenchido nem pelo passado nem
pelo presente.

O vazio do futuro é um tão-só futuro vazio.

Penso, pois, que, perante isso,
só há uma saída: reinventar o futuro,
abrir um novo horizonte de possibilidades,
cartografado por alternativas radicais
às que deixaram de o ser.

Boaventura de Sousa Santos: Pela mão de Alice.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Maria Alice, se sentimos a lágrima do outro como uma emergência nossa, estamos no território da solidariedade viva... Onde descobrimos coragem e sonhos para semear um novo tempo... Um novo socius... Um novo homem...
Indignar-se é acordar para devir-se irmandade, na ternura firme e radical do guerreiro que tece a aurora. abraços jorge

Marta Rúbia de Rezende disse...

Jorge, anote na sua agenda: Presença e Campo Transcendental do Bento Prado Junior sobre a discussão do nada na ontologia na ótica de Bergson. É muito bom. Vc vai gostar, quando tiver um tempinho. Aliás, vou tentar achar aqui e levar de presente pra vc porque é uma edição (esgotada) da Edusp não facilmente encontrável.
No mais, na luta camarada!
No mais é que hoje andei pela Liberdade e lembrei-me de você.
Até breve.
bacio
M

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Marta, que boa indicação, procurarei... Passear pelos campos da liberdade torna o concreto invisível e parece que são montes de folhas de outono que continua.. abraços jorge