domingo, 20 de fevereiro de 2011

A CLÍNICA DO CUIDADO E DA ALEGRIA

                                                        Jorge Bichuetti

Tudo cinza. Silêncio. Assepcia... Nenhuma flor, nenhuma cor... Fúnebre, clima de morte... Espaços de temor e agonia...
Assim, são nossos equipamentos de saúde... Ousam tentar ajudar num devir urubu...
Nenhuma flor na sala , nenhum quadro de alegria.... Não se ouve Zeca Pagodinho, nem mesmo uma nobre música clássica...
Tudo cinza... feito para chorar e se encolher de medo ou de desespero, mas corpos desvalidos que buscam um deus , uma cura, como  se a própria saúde e doença não fossem modos de andar a vida , modos de caminhar...
Nossos serviços são iatrogênicos, para os que sofre e para os que trabalham... ´e um sobre-peso, uma cruz, um calvário, uma lenta e perene agonia...
Uma encruzilhada na na nossa vista: ou mudamos os serviços de saúde ou nos resiguinemos e junto com os usuários de tédio, também, morremos...
                                                       ***
Uma outra clínica é possível e ela pulsa e clama nos nossos corpos: uma clínica de cuidado e alegria...
                                                       ***
Para isso, temos que transformar a relação do trabalhador de saúde com os que sofrem, com seus corpos dilacerados, num bom encontro...
Todo bom encontro é marcado pela alegria e ele compõe, vitaliza e potencializa os corpos do encontro: trabalhadores e corpos sofridos...
a alegria não é ao salvacionismo: é companhia, ternura, acolhimento, esperança e partilha...
Um devir Simeão... Não substituí o Cristo no calvário, lhe faz companhia e por carrega cruz quando este exausto já nada conseguia... Não lhe rouba a dor , nem se apropria da divina ressurreição...
Partilha, coopera... Fica do lado, escuta, compreende, ama... Mesmo sem ter a esperada e necessária solução.
A alegria não nasce no expontaneísmo, nem no duro esforço: vêm do bom encontro.
E um bom encontro pede um contexto de acolhimento e  vida.
Inclusive, por que não contar com os efeitos páticos: uma música, vasos de samambaias e flores, quadros e pintura colorida, vida chamando vida...
A alegria contagia e potencializa os corpos envolvidos no encontro. A alegria não nasce só do heroísmo, podemos criar dispositivos de acolher, onde o outro se sinta, e nós também, num re-canto de paz, esperança e felicidade.
Rasguemos os manuais de onipotência e narcisismo... Sejamos boa gente, uma boa e disponível companhia.
Na hora da dor e da morte, quero uma fita amarela: todos querem companhia e compreensão, direito a lágrima e a fé, a um gesto de carinho, uma mão no adeus e uma sentida mirada que lhe diga que era uma vida ... uma vida querida, um homem e um caminho, junto de outros , longe da solidão...
                                                          ***
Há uma crise instalada. O paradigma médico individual já não consegue hegemonizar uma equipe nem solucionar as dores da vida.
Um deus esfacelado com um trono vazio...
Um novo cuidado é preciso ser inventado.
Faliu o tecnocentrismo, o hospitalismo, a medicalização...  que fazer? .. o que inventar?...
Cuidado: amor, ternura vital, carícia essencial, justa medida, conviviabilidade, compaixão e solidariedade...
Um novo cuidado instituinte que só será implantado se  os quem pensam nas dores e amarguras dos que sofrem no adoecimento  e nas filas dos serviços de saúde, o assumirem como desejo e  vontade de potência.
A vida é um passar e um sucumbir... O insuportável é solidão e o desamparo nas vivências de dor da vida humana.
Na crise instalado, há um vazio... Ocupamos ou não.
Se não ocupamos, carregamos conosco o cinza instituído nos serviços de saúde que possuem a cara da morte, morte que quem ali vive e trabalha incorpora no próprio corpo.
Há uma revolução no ar... Façamo-la ou continuemos tristes e vendo nosso povo excluído e abandonado nas horas tristes e amargas da doença, da dor e da morte.
Cuidar é partilhar...
Cuidar é.amar e se dar... companhia e compaixão nas agruras da dor e nos sacrif´cios da reabilitação...
Cuidar é amar...
Cuidar é afirmação da vida na vida que sofre e vê estropiada pelas desventuras do caminho.
                                                      ***
O mundo chora e sofre... cuidemos, alegremos... Transformemos nosso ofício de cuidador numa militância pela vida.
Uma lágrima secada e compartilhada...
Uma dor dividida e partilhada...
Um carinho na agonia...
Um gesto de amor e compaixão...
Tudo isso muda a realidade de exclusão e desespero da vida dos que padecem e da vida dos que trabalham, tendo por ofício a alegria de ser a voz da vida nas travessias difíceis e na própria hora da partida.
Estamos falando que a medicina mitificada e endeusada, por muito tempo negará... Como a ciência não perceberá...
Falamos do que pode o amor no cuidado dos que sofrem...
O mundo anda surdo, mas a voz do amor é escutada e esperada pelos que padecem na dor...

14 comentários:

Tânia Marques disse...

Simplesmente BÁRBARO! Que Deus te ilumine sempre com essa consciência de si e do outro. Cheguei à conclusão de que nada terei a reclamar no PROCON...rsrsrsrs! Beijos, mil beijos em teu coração solidário, fraterno e poético.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Tânia, sinto-me sustentado no seu carinho e impulsionado a crescer para não distanciar-me tanto do horizonte visto.
A vida é e será sempre um espetacular laboratório. Nos re-fazemos todo dia.
Assim, vamos buscando um novo patamar de vida, prometo aceitar a alquimia do destino, me re-fazendo num sentido da intensificação da ternura e suavidade,
para, merecer seu carinho.
abraços com ternura, Jorge

Tânia Marques disse...

À primeira escrita

Ensina-me a chorar, a tresloucar,
O teu beijo é um doce cantar
O teu gemido me impele a ousar
Quero a paz narrar deste momento
Nossas vidas em movimento
Instrumentos de nossos próprios sentimentos
Minhas lágrimas escorrem por dentro
Inundando a minha alma de paixão
Devir emoção
Tomando conta do meu coração
Sonhar
Simplesmente navegar
Nos braços da ilusão
Sob o olhar forte da lua
E a permissão imediata das estrelas.

Tânia Marques 20 de fevereiro de 2011

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Tânia, poesia linda: com a pele escrevendo no luar, ou o luar tatuando a pele; pura emoção... um mergulho da vida no oceano da paixão;
Abraços com ternura e carinho, Jorge

Adilson - Rio de Janeiro - Brazil disse...

é ...pbens à Tania ...pelo lindo poetar ....
é isso amigo ... por aqui poesia e coisas sempre ....sempre bordeadas pela bondade de seu coração
Abraços

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Adilson, formamos um carinhoso grupos de apaixonados pela vida-poesia, um caminho de se tecer no entre anores e um novo dia.... Amamos a poesia e , assim, vivemos na suavidade mágica dos que voam na amplidão do azul do infinito.
A Poesia da Tânia é belíssima... Esperamos novas contribuições suas.....
Com carinho, abraços, Jorge

Anne M. Moor disse...

Jorge

Que texto cheio de verdades. A esperança desses paradigmas novos aparecem aqui e acolá. No nosso hospital escola os corredores são exposições de arte. Temos o pessoal da faculdade de música que vem cantar para e com as pessoas no hospital. Pode ser um começo, mas é.

A humanização dos serviços de saúde são urgentes assim como os do sistema educacional.

bjos
Anne

Adilson - Rio de Janeiro - Brazil disse...

Pois ... vc abriu seu blog falando de cuidado .. num belissimo texto ...
E eu ... te mando esse poema ácido ...

Menino travesso

Menino travesso,
Cabeça cheia de mundos
E fantasias de heróis...
Dormia sob marquises,
Cama dura sem lençóis,
Olhava o mundo às avessas,
Pura sorte, pura cola
Viver é muito duro
A morte não dói...

A casa fugiu,
Fugiu a escola...
Nos palácios...
Discursos englobantes
De risonhos palhaços,
Capazes de tudo dizer,
Inclusive...
O seu próprio fracasso...

... Menino travesso,
Cabeça cheia de mundos,
Viver é muito duro
A morte não dói...

(©by Adilson S. Silva)

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Anne, como é gratificante ver a vida se humanizando, não? Penso que o processo de humanização da saúde, da educação, do rua e do trabalho geram um novo homem: amoroso, confiante na vida e no outro, cheio de ternura e esperança, vivo-potente...
Um caminho de lutas que dá sentido às nossas vidas...Abraços com ternura e muito carinho, Jorge

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Adilson, a poesia afeta e produz mudanças contagiando o desejo de uma nova vida; os poemas ácidos costumam ser mais potentes, pois nos comovem e nos indignam... Nos faz desejar e sonhar com um outro mundo possível...
Este menino travesso está belíssimo, meu amigo;
Abraços , Jorge

Retiro Terramour disse...

Muito bom, lembrar dessas pessoas tão especiais que se dedicam em ajudar os outros em se alguma forma aliviar a dor....a solidão...ou mesmo a falta de esperança em dias melhores...pessoas assim são um pouco anjos que espalham alegria, paz, amor e alivio aos corações já tão maltrados pela doença...Deus o abençõe Dr. Jorge pelo seu trabalho e reconhecimento dos outros. Fique com Deus.
Sara

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Sara, a vida necessita dos que se dão, aliviando as agruras da caminhada.
Um gesto de carinho na hora da dor alivia e reergue, alguém que sofre caído no chão. O amor e a generosidade criam uma nova vida,
Abraços, Jorge

Isa Ialy disse...

Cheguei ao seu blog pelo tema "clínica do cuidado", q muito tem me interessado e atraído. Gostei da sua produção. Vc escreve bem, escreve com a alma. Aqui tem sentimento, mas tem razão tb. Muito bom! Parabéns =)

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Isa, que possamos trocar e crescer no caminho da reinvenção do cuidado-amor... abraços com carinho, jorge