sábado, 26 de março de 2011

DIÁRIO DE BORDO: ESTIGMA E EXCLUSÃO - A GEOGRAFIA DA OPRESSÃO...

                                                                    Jorge Bichuetti

A Lua anda saltitante. A casa cheia, com seus amigos, indo e vindo, numa alegria irradiante a deixa com a sensação de festa... Um dia de sol... Sol claro, céu azul...
Um dia de luta: a hora do planeta... Um hora de escuridão para que brilhe a luz da vida, proteção, vida-cumplicidade e ternura... Vida, longe das trevas da destruição...
O destruição nem sempre campeia explícita... Nem sempre se mata com um tiro direto no coração...
Há modos de matar, aniquilar, limitar, coibir, inibir, estropiar, esquartejar, danificar... que acontece com mecanismos que surgem disfarçados e se erguem, trazendo isolamento e morte, em nome da vida.
Ontem, quando fizemos a postagem do cisco no olho: abrimos um assunto... O estigma, a segregação, a exclusão...
Queremos retomar e dizer que Goffman permanece um autor atual e necessário.
Ontem, os asilos... As instituições disciplinares... Os hospícios, os leprosários, as prisões, os conventos, os internatos... As zonas de isolamento e segregação... As instituições totais... Nela, a cronificação e a desvalia instituindo uma subjetividade tímida, silenciosa, retraída, culpada... Uma desvalia no corpo e na alma...
Assim, ocorreu a instituição da normalidade e a marginalização e isolamento com morte civil decretada da diferença...
A cidade não conseguiria se organizar como planta de produção de pelas ruas perambulassem  loucos, boêmios, ciganos, putas, crianças e velhos sem lares... Eles encarcerados: um dentro e um fora, um muro...
E nas instituições totais, um grau zero de comunicação... Uma desqualificação da palavra e do desejo, do corpo e da ação dos que ali estavam para se resignarem a uma vida inferior, de desvalia e de encolhimento...
Hoje, com a sociedade mundial de controle a sujeição não necessita mais dos aparatos segregatórios... Ela se encontra diluída, difusa, permeia o socius...
Nos sentimos culpados e nos punimos por que não somos o que serpenteia nos difusos mecanismos de controle como vida ideal...
Somos fumantes... gordos... baixos.. imigrantes..singularidades não-incluídas no ideário do controle.
O cigarro é um exemplo da manutenção da exclusão... E ela novamente assume um valor: se exclui em nome da saúde...
A proibição de se fumar não é a a única medida de proteção dos denominados fumantes passivos... Foi a que interessou o capitalismo e que equivalia a atual concepção da vida onde atos e atitudes são medicamentos...
Não se come, como disse Merhy no Congresso de Esquizoanálise, um prato de salada, toma-se e ganha-se ali algum tempo de sobrevida.
Por exemplo, não posso fumar... num bar; mas tenho que respirar o ar poluído por automovéis e fábricas...
e quando acendo um cigarro, sou induzido, senão me cuido eu mesmo, a pensar, que não fumarei um cigarro, mas sim que perderei alguns anos de vida...
Assim, se dá o controle...
Não se pensou que se poderia distribuir os espaços e reorganizar o socius... O espaço serve ao Capital, não ao desejo de que possamos conviver todos, os diferentes não sendo segregados ou criminalizados, num olhar de condenação.
Daí, cabe  retomar  nossa guerreira Rosa de Luxemburgo, e dizer que queremos e lutamos: "por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres"...

8 comentários:

Anônimo disse...

Olá Jorge. também sou contra a proibição de fumar.E não fumo. Mas acho que centrar o foco nas desgraças do mundo no capitalismo é ser ingênuo. O capitalismo não é uma ideologia. É um sistema de negociação de bens. Me parece que vem de longe. Desde que a sociedade se organizou. E se mantém porque é mais compatível com a imexível natureza humana de milhões de anos. Ele tá longe de ser perfeito, mas sem ele, o mais provável é que em vez de 2 bilhões em má situação, teríamos 5 bilhões.
Todo poder corrompe. É sabido.
No socialismo totalitário como foi a URSS, a corrupção que se instalou foi total, tanto é que, por falta de dinheiro faziam usinas atômicas sem a terceira blindagem, o que causou Chernobil, muito pior que esse desastre, que foi por causa de um tsunami,no Japão.
Enfim, quando se tem polos de poder, existe a corrupção, mas no capitalismo democrático esses donos do poder correm o risco de perdê-lo ou serem punidos, caso extrapolem a legislação. E, os polos de poder são em maior número, o que os diminui a condição do poderoso em querer o domínio total.
Concluindo: eu acho que todos queremos justiça e isto se faz com um judiciário escorado numa boa legislação.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Querido amigo, a leitura da segregação vinculado ao nascimento das cidadese estas a transformação do trabalho artesanal em trabalho fabril com a organizaçãoe implantação das relações sociais de baseadas na mais-valia, são dados históricos.
é um momento que o capitalismo se organiza com sociedade disciplinar: vide os livros de Rosen, e osa História Social da Criançae da Família.
O socialismo totalitário nunca rompeu com o capitalismo: subjetivava com os mesmos mecanismos de exclusão.
Com a globalização, vide Deleuze e< Hard e Negri, a exclusão passa a ser difusa e diluída, permeia nossos caminhos: internet celular, mídia globalizada..
Sinto que a conversa precisa se aprofundar... e estamos aí, vamos discutindo pois o diálogo é a riqueza libertária sempre. abraços com carinho. Jorge

Marta Rúbia de Rezende disse...

É engraçado como o tempo passa e a pessoa não muda e não se cansa de repetir o irrepetível que é a história. Agir e não reagir, amigo anônimo. Afinal, o que temos nós a ver com isso de socialismo burocrático, União Soviética? Será que vc nos quer condenar a viver de capitalismo? Até mesmo no centro do Imério americano se questiona o capitalismo como faz muito bem o Michel Moore e outros.

Se o capitalismo é bom pra vc, ok, defenda-o. Mas ele não é bom pra mim e pra bilhões de pessoas. Temos o direito de questionar os fatos, inventar novos fatos, criar outros mundos. A história não é uma prisão!!! E nós somos vastos.
abraços
Marta

Marta Rúbia de Rezende disse...

E tem mais uma coisinha que esqueci de escrever na mensagem anterior. Capitalismo não é ideologia e sim um mercado, é o que escreveu o colega anônimo. Pois eu prefiro a formulação de de Foucault: o poder produz a verdade antes de mascará-la na ideologia; o poder produz a realidade antes de forçar o seu enquadramento através da violência.

Considero a formulação "capitalismo não é ideologia" como IDEOLOGIA. Pior do que ter ideologia, é achar que não se tem ideologia. Trata-se de uma dominação completa.

abs
Marta

☯ℒ❀LuGoyaZ❀♬✪ disse...

A mão-de-obra escrava sabe bem onde dói a opressão e as adversidades advindas do capitalismo. Dói na pele do negro, na pele dos aposentados, na pele do escravagismo infantil, etc... O que menos há, é infantilidade nisso. Há aproveitadores da parte frágil econômica, representado pelo povo submisso e oprimido. O capitalismo jamais se romperá. É simplesmente perfeito e conveniente. Mas por amor ao debate, deixo aqui alguns guardados meus...
Base jurídica do Capitalismo
O capitalismo clássico do século XIX fundamenta-se em três grandes princípios: o da liberdade econômica, o da propriedade privada e o da herança.
A liberdade econômica é tida como uma conseqüência da natureza humana, do "valor eminente" da personalidade de cada homem em livre expansão na sociedade, através da liberdade pessoal, liberdade de convenção, liberdade de trabalho, liberdade de consumo, liberdade de concorrência.
(Fonte: B. - Paul Reboud e Henri Guitton, Précis d'économie politique, I. Dalloz ed. Paris, 1951).

☯ℒ❀LuGoyaZ❀♬✪ disse...

Abraço Dr. e Tenha uma linda semana meu amigo. Felicidades. Amiga LuGoyaZ.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Marta, agrego suas reflexões às minhas... Não há como negar o mercado, a acumulaçãoe a mais-valia; e os mecanismos difusos não se dão por uma moral, há uma lógica produtiva: no cigarro Foucault se aplica: verdade-poder e normatização excludente...e assim, descaminha a humanidade... Podemos sonhar, lutar, resistir, insurgir...
Beijos com carinhoe ternura, Jorge

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Lu, um grande abraçoe uma semana de paz e alegria... O capitalismo explora, exclui... O sonho de um outro mundo possível nos anima e faz sonhar...
Abraços com carinho, Jorge