quarta-feira, 27 de abril de 2011

DIÁRIO DE BORDO: OS SINOS BADALAM A CANÇÃO DA VIDA...

                                                    JorgeBichuetti

Seis horas; os sinos me avisam... Doce ilusão!... Eles cantam a vida. Celebram a alegria de um novo dia. Oram... a prece ecuménica da música que enternece e dá vida à vida.
O café quente aquece a alma, o sereno revigora os sonhos e perpetuam a magia da noite. A Lua dorme... Aspiro o verde. Queria meus caminhos verdejantes como verde amanheceu, hoje, o meu quintal...
No escuro, sinto cada planta: cheiro, textura, astral... São vidas, vidas singulares...
Demorei deixar na cabeira da minha cama, minha suave companhia: Os Bichos são gente boa, de Renato Muniz.
Cerrado, bichos, vida... Um livro que é um precioso manual sobre a ternura e a beleza da vida: vida encantada pela poesia da natureza; natureza divinizada pela poesia da vida... Livro de contos, ecologia. Porém, nele, escutei os cantos da vida.
A vida canta e encanta... se dela nos aproximamos com o corpo disponível para ser afetado pela sabedoria singela do insondável infinito.
Nela, cantam a simplicidade, a ternura, a compaixão, a solidariedade, a partilha, o compromiso ético, a doação, a candura, a paixão, o cio, esperança, a paz e a utopia...
Vivemos num mundo que o reino das mercadorias hipnotizou os seres humanos e o mercado soberano nos capturou e agora só escutamos e só valorizamos os cantos das mercadorias. Mundo de coisificação, de despersonalização, de idolatria... Um canibal processo de desumanização. O ser humano é valorizado pelo que detém, pelo que possui, pelo fetichismo das mercadorias que agora ditam o valor das pessoas e da vida.
Resistente e insurgente, a vida canta...
Ela fala, dialoga, conclama... Mostra-se singela e terna e flui, incessantemente, movida pelo encantamento da coisas na sua função, na sua magia e poesia; nem presta atenção no valor de troca... A vida flui numa perene e constante doação.
E nós... somos felizes subsumidos no mundo do consumismo, individualistas e onipotentes, alheios aos cantos da vida?
As catástrofes da natureza e a epidemiologia nos desnundando deprimidos, panicados e toxicodependentes dizem que somos uma humanidade pervertida, triste, engolhida...
Coisificamos as pessoas e depois vem a solidão porque chega a hora que precisamos de gente e elas se revelam um espelho onde vemos o que estamos fazendo de nós, do outro e da vida.
Projetamos fora o que temos dentro de nós; assim, como um judeu errante buscamos além o que lá não está, porque está com a gente... A felicidade mora no coração da gente... É ternura, simplicidade, compaixão, solidariedade, liberdade, partilha, compromisso ético, doação, candura, cio, esperança, paz e utopia...
Um rosa desabrochando... Um passarinho tecendo seu ninho... Uma borboleta no seu voo livre... A candura de um cão... A ternura de uma noite de luar... A esperança no colorida do alvorecer... A paz do entardecer... A simplicidade das anônias minhocas... O cio permanente do chão fértil... A solidariedade das árvores frutíferas... O compromisso ético do sol... A beleza do arco-íris, que ilumina esplendoroso e desaparece, suavemente, para que azul do infinito volte a ser o território livre das utopias...
Como é belo o canto da vida...
O canto das mecadorias é o canto da sereia: encanta, seduz , leva para as profundidades do mar e mata, aniquila, nos consomem.Somos infelizes consumidores consumidos pelo nossos fetiches...  o mercado e sua glória, a riqueza encobrindo nossa desvalia. A desvalia de quem perde os valores singelos da vida e se vê seduzido e hipnotizado pelo reino das mercadorias, coisas coisificantes; e a desvalia da multidão que na miséria padece, pois se vê faminta e sedenta, espoliada dos bens que produziram com seu trabalho.
Infelizes, vegetamos nos divãs dos analistas; gememos num leito de hospital, ou choramos sozinhos...
Não somos felizes... somos coisas, mercadorias. Somos idólatras da deusa mercadoria... O mercado é a catedral do nossa nova fé: no altar, o dinheiro, mercadoria universal... e nós ajoelhados, penitentes no nosso cinzento vazio existencial...
Precisamos aprender com os bichos: aprender a ouvir os cantos da vida, aprender a ser gente boa.
A felicidade é o amor, seiva da vida... que peregina pulsante nos encantos singelos da vida.
A felicidade mora na vida; e vida é vínculo, relação, conjunção e conjugação nos encontros... onde a flora, a fauna e os coletivos nos humanizam nos dando, de novo, a magia da estrada ao nos tirar das prateleiras do mercado...
Assim, se sente... quanto se escuta a vida que canta a sinfonia da alegria na vastião do cerrado...


16 comentários:

Anne M. Moor disse...

E como a gente muda! Eu nunca gostei de levantar cedo, mas, hoje, acordo cedo e gosto tanto do silêncio do amanhecer. Saio para a academia bem cedo muitas vezes com a bruma ainda no ar... Bom...

bjos
Anne

Tânia Marques disse...

Jorge querido, muito boa a tua reflexão sobre o valor quantitativo/qualitativo da vida. A vida hoje passa pelo mercado de consumo,e é ele que dita as normas a serem seguidas, infelizmente. Primeiro compramos mercadorias, depois as vendemos e, por último, nos transformamos em mercadorias. Claro que há pessoas como nós, que sofrem as consequências disso por serem libertas, sonhadoras, entusiasmadas com o novo, com fé num porvir próximo. Seguimos estradeando por um mundo melhor sem perdermos a esperança. Beijos

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Anne, eu comecei a mudar e vi que a vida estava ganhando brilho e intensidade, poesia no caminho. Beijo e abraços , jorge

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Tânia, lutar com o reino encantado das mercadorias, podendoo tê-las para viver e não para serpor elas subsumidos, é mágico.Como você disse algo muito às avessas do que mundo hoje vive. Vamos sonhando e semeando, um novo dia rairá com sonhos e poesias.
Abraços com imensa ternura, Jorge

Marta Rezende disse...

Ei Jorge, fico alegre em saber que tem gente que acorda cedo como eu. Se bem que às vezes volto pra cama. Então durmo que é uma beleza.

Gente-mercadoria não dorme hora nenhuma, me parece. Estilista famoso que está no Brasil diz coisas como "não tiro férias, não saio, meu prazer é o trabalho". E pra arrematar diz "estou à venda".

Se bem que tb goste de trabalhar, gosto muito de dormir e de ficar à toa. Se bem que tb precise vender meu trabalho pra sobreviver, não estou à venda.

A luta pela sobrevivência é fundamental. As mercadorias e o mercado são importantes para nos abastecer e oferecer. Mas seus alertas são importantes: não podemos nos reduzir a sobreviver e a consumir. É preciso viver.

No mundo atual do Deus-dinheiro, Deus-mercadoria, não é fácil encontrar a equação da vida. Há uma parte da fórmula que não é contável, matematizável, trocável. Portanto, não é fórmula, não é axioma. Essa parte não quantificável talvez se chame poesia ou arte ou invenção. Estou atrás desse "brilhante". Creio que muitos estão.
abraço apertado e beijo na nuca
M

Renato Muniz disse...

Olá Jorge,

Muito obrigado pelas palavras tão bonitas a respeito do meu livro (aliás, nosso livro, uma vez que agora ele é dos leitores). A ideia foi essa: curtir, descobrir, pensar e repensar nosso lugar no mundo, sem excluir ninguém, nem bichos, quaisquer que sejam, nem plantas, nem as coisas que fazem parte do mundo, do mundo concreto e do mundo afetuoso, do mundo das sensações que nos fazem admirar a Lua, um entardecer, as diferenças entre as estações do ano, os sentimentos. A ideia que permeou os contos foi a de destacar pequenas sensibilidades que nos ajudam no dia-a-dia a estabelecer ligações com a realidade e reforçar nossa presença comum, política, cultural, pessoal e coletiva. Quis mostrar que é possível ousar, numa perspectiva progressista, libertadora, que é possível estabelecer vínculos num devir constante de transformação, sem perder de vista que mudar o mundo é sempre possível.
Abraços.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Marta, a vida exige persistência e flexibilidade, expansão e retração, intensificação e lentificação... Vê-se que vamos nos conduzindo por movimentos que levam a um nomadismo mais vivo e vivo prudente. As mercadorias devem ser nossas aliadas na caminhada; não nossas deusas... Ai, vejo você e o mdista, eu e os meus perfumes... Lia hoje Wilde e ele afirmando que a verdade tem ir pra corda bamba pra ver se segura.
A vida caminha florescente e reluzente... A humanidade, nem tanto; ou melhor, vamos mal.
Estragamos a vida e a nossa vida, coletivamente; e o capitalismo nos estrangula: os muitos estão é um reflexo das encruzilhadas que nos agenciam ou atravessam. Resta a utopia, nela voamos.
Abraços com imenso carinho; Jorge

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Renato, seu livro intensificou em mim algo que acontecia diminuto: acordo, vejo o quintal, a vida e começo meu diário, nasce umasunto. Ou levo para o quintal um tema e o ponho conversando com a vida.
Nasci urbano; apesar de ser garimpense. Lendo-o, percebi que a globalização já vinha e nos consumia, num pragmatismo e racionalismo extremo.Vendo a vida e você dando vida aos bichos e a uma natureza que me atravessava sem que eu percebesse, me pus a sentir que ecologia é algo mais do sustentabilidade e preservação, é uma subjetividade que inclui esta convivência terna e suave cuja sensibilidade nos dá uma dimensão nova: a luta passa pela pele e não só pela razão. Vi o porco-espinho e a liunha estava comigo e eu me peguei pensando no que pode a sensibilidade, se ea não é as asas da utopia, algo que os coletivos podem resgatar já que numa perpectiva do "povo gente boa" se começa a pensar a transformação não somente para, mas com, dentro...num exercicio de diálogo expontâneo. Os devires acontecem e contagiam: seus contos me fez cerrado e me fez pensar inclusive na minha teimosa utopia socialista como um processo de auto-descoberta e coletiva construção na caminhada da vida, feito as manhas e artimanhas dos bichos.
Abraços e não posso deixar de lhe agradecer por partilhar nestes contos um profundo mergulho na vida;
Abraços com ternura, Jorge

Marta Rezende disse...

Oi Jorge, hoje tive um dia de tormentas mentais. Esquisitíssimas... Começou logo cedo, acho que até antes, nos sonhos com suicidas. E depois veio insistentemente a pergunta: "o que é isso de mudar o mundo?. Me soou muito estranha essa pregação.

Depois te conto mais. Tenho que parar pra resolver uma questão externa.
beijo
M

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Marta, talvez, a ideia de mudar o mundo como ato mágico de martírio; necessite ser transmutada pela transformação dionísica de mudar, afirmando-se na vida com alegria.
Abraços com carinho, Jorge

disse...

A vida é infinita porque se alimenta do fim. Findar é potencializar o infinito.

AUGUSTA CARLOS disse...

Jorge, ao som da chuva torrencial, conclui a tarefa que me deu, enviei-te.
os céus choram, o cerrado agradece e ao mesmo tempo se enfurece por sua extinção com certeza já existem muitos alagamentos no centro. Cercearam o lajeado, e ele teima em correr mesmo que acima de seu leito, invdindo e incomodando todos que se apossaram de seu espaço.cercearam o lajeado, extinguiram os caiapós.
Sou cerrado, sou camponesa, sou sasacura, bem-te-vi, cafezal em flor,gabiroba, jatobá, genipapo, casinha de sapé,canarinho da tera, passaro preto,quaresmeiira e flor, paineira.
Então assim que vc terminar me empresta o livro do Renato, Renato que não conhecia mas já admirava a 8 anos.
Beijos
augusta

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Augusta, que a alegria: irei colar imagens e assim que termine, publico imediatamente: uma felidade.A chuva no telhado, mas...
Abraços com carinho e admiração, Jorge

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Josie, querida, a vida se plenifica nos minutos que eternizam uma vida e nas vidas que eternizam o minuto.Abraços ternose cheioss de saudade.
Abraços, Jorge

Marta Rezende disse...

Jorge, desculpe-e por ontem, estava escrevendo e recebi um telefonema. Tarde da noite, tive que largar e sair. Está tudo bem. Há dias estranhos e há dias mágicos. Em todos eles, de repente pode surgir um grito. É a insurgência, o acontecimento, a vida.
Minha questão sobre mudar o mundo já não tem importância. O sol é novo todo dia, mesmo quando escondido atrás das nuvens como está hoje por aqui. É o inverno chegando, bem vindo.
beijo
M

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

marta, te adoro; e também como você tenho meus dias nublados onde o céu claro fica ofuscado e sentidos atravessados. Conta sempre comigo, abraçose um dia com muita paz, no friozinho que se anuncia: aconchego e sonhos.
Abraços, Jorge