domingo, 17 de abril de 2011

FOBIA SOCIAL: LINHAS GEOGRÁFICAS DO MEDO

                                                              Jorge Bichuetti

Não raramente sentimos ou vemos alguém inibido por uma fobia social... Angústia, medo... Sensação de impotência, incapacidade de estar com  o outro, com a multidão, de estar na rua, nos lugares povoados de outros... Um nó... Coração acelerada, perda da voz... evitação...
A psiquiatria psicopalogiza a problemática... A psinacálise codifica, explicando-a na reedição do medo de castração...
Perguntamos, não haveria linhas outras não abordadas por estes pilares do cuidado que acabam discriminando e culpabilizando o portador deste ou de outros sofrimentos mentais?...
Na impossibilidade de alencar todas, citaremos aqui três que são muito analisadoras do mundo que criamos e não qual vivemos, e nele vivenciamos nossas possibilidades  e limitações...
Vivemos num mundo paranóico... Todos somos noiados... Explica-nos a análise institucional que todo vez que um espaço é dominado pelo instituído, ele se polariza e se formado como um pólo paranóico... Vítimas e algozes;  perseguidores e perseguidos.. Inimigos no ar.. pairando sobre nossas vidas... Se somos sensíveis, vulneráveis, ficamos fóbicos... porém, nossa fobia emerge num contexto que a torna funcional e autoexplicativa. Se mundo é persecutório como venço minha timidez , se lá no fora há, de ante-mão, um inimigo dado. Pronto para me degolar...
Queremos paz, fazemos muito pouco por ela; e o pior que nos cegamos e não vemos que vivemos num mundo onde a violência se institucionalizou... Podemos mudar; porém, hoje a violência não é delírio, está dada na funcionalidade do sistema... Narcotráfico; bandidos; crack... Realidades que são também uma fumaça... Violências que escondem uma violência dissimulada, num dia-a-dia, na própria subjetividade... Negri afirma que a violência é inerente ao fascismo... E que pode o microfascismo capilarizado e diluído por todo socius?... Não vivemos uma sociedade de acolhimento e inclusão; vivemos, sim,. uma sociedade estigmatizante, excludente e que se norteia pela normalidade e que por sua vez é a normalidade da força bruta, da esperteza, da malandragem, é a ditadura da vitória, do poder, da força, da beleza e da felicidade... Como não entender a proliferação e o agravamento das fobias , se vivemos num socius que nega a nossa humanidade: de obra inacabada, de projeto, de experimentações e quedas... Se falho, minha testa será tatuado com o signo da perdição( um perdedor)... Como se aventurar , se, previamente, está definido que sou obrigado a vencer e a derrotar o outro?... parece compreensível, na lógica dominante, se refugiar...
Está. O mundo que vivemos reprime a agressividade: dos oprimidos, dos homens comuns... suprime com sua segmentariedade e pragmatismo, o devir guerreiro... Como ir para um cenário paranóico e de guerra institucionalizada, se me espoliaram da minha capacidade de guerrear?... Somos , então, fobinegizados... Somos subjetivados como subjetividades servis, submissas. Desconhecemos o guerreiro que dormita nas entranhas de nós mesmos... perdemos o animal... o devir animal... E os tememos porque eles são o matar... Funesta ilusão! Podemos guerrear pela vida, pelos nos animalizar com a doçura e angelitude de uma ética... Porém, doçura e angelitude vitalizadas de potência, de rebeldia, de insurgências...
Hay que ser firme pero sin perder la ternura jamás... Nos levaram Che Guevara... E aqui não reflito sobre política, analiso a falta que um devir Che nos faz na vida, do dia-a-dia...
Cuidemos do fóbicos com carinho e compreensão... Contudo, se somos pela clínica que é vida e movimento, transformemos o mundo: ele é fobicogênico...
Pergunto, não seria fácil desmontar as fobias num mundo de inclusão e ternura, solidariedade e paz?...
Politizemos nossa compreensão, antes que façamos da nossa intervenção um adereço da crueldade vil instalada como normalidade e vida saudável, sob a lógica da exploração, dominação e mistificação...
Antes de intervir, escutemos Fernando Pessoa no Poema da da Linha Reta...


















DIA 22 DE ABRIL: DIA DA TERRA... ARTE , LUTA E SONHOS PELA VIDA, TERRA, NOSSA MÃE, NOSSA VIDA...

9 comentários:

Tânia Marques disse...

Jorge,
Meu filho caçula (20 anos) sofre de fobia social como sendo comorbidade da bipolaridade. Sei bem de perto como é esse sofrimento mental, pois ele "respinga" em todos que estão à sua volta. Pedirei para ele ler esse maravilhoso texto, quando retornar do futebol. Beijos e muito obrigada por tocar nessa questão. Será muito útil para ele.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Tânia, a dor e não saber como ajudar leva o mundo a aumentar o estigma, culpabilizando. É necessário ver as muitas linhas que atravessam uma dor, para ir desmonto-as e cuidando, suavemente. Abraços com ternura; Jorge

Sumayra Oliveira disse...

Jorge,
Seu texto é um chamamento para politizar a ciência e cientificizar a política!

E o Poema de Pessoa, são flores em fuzís e bombas com chocolate.

Sumayra

Sumayra Oliveira disse...

Jorge,
Seu texto é um chamamento para politizar a ciência e cientificizar a política!

E o Poema de Pessoa, são flores em fuzís e bombas com chocolate.

Sumayra

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Sumayra, penso que precisamos conversar; vejo como você: temas que podemos olhar e desmistificá-los, politizando e dinamitizando-os com a arte; abraços com carinho, Jorge

Thati disse...

Ótimo texto!
Concordo e acredito que a maravilhosa tarefa é acolher os que sofrem, dentro deste contexto e fazer o que cabe a nós quanto profissionais e quanto pessoas. Um sociedade excludente é feita de pessoas excludentes, portanto cada um tem o dever e o poder de mudar, mesmo que um pouco esse contexto.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Thati, penso que sim... Cuidar é incluir... acolher, emancipando... alegrar, vitalizando... amar, germinando o novo.Assim, há que enfrentat os perversos mecanismos da exclisão.
Abraços com carinho; Jorge

Merilin Rose Soares Bellido disse...

Olá Jorge,
sou professora de Filosofia e demorei 32 anos para buscar ajuda, estou escrevendo meu histórico de oportunidades desperdiçadas e atividades iniciadas e abandonadas...Há 10 dias comecei tratamento, com diagnóstico de fobia social e depressão,me confortou seu texto e sua visão sobre o tratamento que se deve dar à questão da fobia social.
Abraços,
Merilin

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

MERLIN, O TRATAMENTO AJUDA MUITÍSSIMO; JÁ A IDEOLOGIA MÉDICA ATRAPALHA... JOGA TODA RESPONSABILIDADE NAS COSTAS DE QUEM SOFRE... HÁ UM SOCIAL... E HÁ UMA UTOPIA POR DETRÁS DOS NOSSOS MEDOS... HÁ DESEJO DE VIDA. SEMPRE QUE QUEIRA CONVERSAR PODE USAR ESTE BLOG, AQUI VIVEMOS COMO SOCIEDADE DE AMIGOS. MEU CARINHO ABRAÇO, COM MUITA TERNURA, jORGE