terça-feira, 26 de julho de 2011

BONS ENCONTROS: ADILSON S SILVA, REFLETE SOBRE AS ENTRANHAS DO AMOR E DO DESAMOR...

Sobre o Amor - Mais Ainda
                  Adilson S Silva
Pensei em escrever esse  artigo sem endereçamentos, mas ao longo do discurso ele foi se auto-endereçando.Talvez, pela experiência clínica, os  abusos via de regra sejam endereçados à mulher, então por ora ele estará se referindo ao feminino. Ademais , as queixas também são endereçadas ao lugar da mãe na subjetividade e  ai é mais como acusada que a mãe se instala.Imperiosa, possessiva, indiferente , fria , mortífera , presente demais ou ausente demais atenta demais ou distraída demais, quer prive, quer cubra de mimos, quer se mostre presente ou negligente por suas recusas  ou suas dádivas, ela é para o sujeito fonte de suas primeiras angustias. É claro que a mãe de quem se fala é a da fantasia, é a mãe objeto vista pelo prisma da fantasia do falante. Esse discurso também estará endereçado aos pais , porque vamos falar também desse amor.

Primeiramente, gostaria de esclarecer que amar não é impedir a conseqüência do ato irresponsável de outra pessoa por mais, que a queiramos bem. Esta pessoa pode ser um filho, os pais, o namorado ou o cônjuge, até um professor, um amigo ou um chefe. Não importa o grau de nosso relacionamento com ela, por mais íntimos que sejamos não somos responsáveis pelas conseqüências do seu comportamento. Somos sim responsáveis pelas conseqüências dos atos que deixamos ser praticados com ou contra nós pelos outros. Por­tanto, amar no sentido humano, no relacionamento de cada dia, não implica em dar a nossa vida, consumirmo-nos, desgastarmo-nos ou irritarmo-nos para responder pelos atos, pensamentos e sentimentos dos outros. Somos responsáveis por nós. Fazendo isso, já fazemos um grande bem à humanidade.
Pode-se amar muito uma pessoa e não assumir as conseqüências do comportamento dela. Aliás, amar é respeitar. Significa que a deixamos ser o que ela é, a deixamos arcar com o ônus dos próprios atos. Se forem preju­diciais, podemos ficar triste e sofrer. Se forem benéficos a ela, podemos nos alegrar com ela. Nada nos impede de alegrarmos com os que se alegram ou chorarmos com os que choram.
Mas, não temos o direito de impedir que a outra pessoa aprenda com o preço que ela tem a pagar com o próprio comportamento. Fazer isto é tirar dela o direito de crescer e aprender com a experiência; é bloquear o processo de desenvolvimento pessoal.
Bloquear o aprendizado dos outros é passar pela vi­da se revoltando, se magoando, se res­sentindo e se deprimindo. Pior ainda é  olhar para trás e arrepender-se porque pensou-se que se es­tava fazendo tudo por amor, mas des­cobriu-se que esse amor não era amor.
 A vida, em termos de amor, foi em vão. Mas, nunca é tarde para começar. Não im­porta a idade que se tem, ainda há tempo para mudar. Não mude os outros. Mude o seu comportamento, não o dos outros. Se você mudar, os outros não con­tinuarão a abusar de você. Para tanto você precisa de coragem, esforço e perse­verança.

Submissão cega
Vamos tornar a coisa um pouco mais real e mais próxima da rotina diária de nossas vidas. Vamos supor que você seja uma namorada cujo namorado faz de você o que ele quer ou vice-versa: men­te, tem outros namoros, deixa você de lado, critica você, desvaloriza suas qua­lidades, proíbe você de vestir-se como você quer, não se lembra de seu aniver­sário, não lhe dá presentes, só fala com você abrutalhadamente, e aponta mal­dosamente seus defeitos físicos ou pon­tos fracos. Se você aceita esta bateria de maldades em nome do amor, pode ter certeza de que isto não é amor, mas falta de respeito próprio.
Agora vamos supor uma mulher ca­sada, cujo marido, além de tudo aquilo que fazia no namoro, acrescenta uma lista de irresponsabilidades pessoais pa­ra ela cuidar. Por exemplo: Bebe , chega em casa e deixa os sa­patos jogados na sala, as meias na co­zinha, o paletó pendurado na maçane­ta da porta de entrada, a toalha de ba­nho molhada jogada no chão do banhei­ro e a roupa suja amontoada no quar­to. Mais ainda: pela manhã ele coloca o despertador 40 minutos antes da ho­ra em que precisa se levantar. Só que ele não acorda e ela tem de chamá-lo. Ela o chama quatro a seis vezes. Ele perde a hora e não se levanta apesar do despertador e de ela o chamar. Fica mal-humorado por causa do atraso e briga com ela porque não o tirou da cama. Se ela pega tudo que ele deixa jogado e passa o ano in­teiro o chamando para se levantar, e faz tudo isto pensando que é amor, está en­ganada: isso não é amor; pode ser servilidade ou escravidão, mas amor não.
Superproteção
Agora vamos supor que ela tenha um filho ou filha. Ela fica feliz, faz tudo para seu filho. Ele ou ela cresce tendo todas as suas vontades satisfeitas. Ela nunca diz não para ele/ela. Nunca o(a) contraria. Desde pequenininho(a), se ele/ela não quer ficar na ca­ma, ela o(a) pega. Ele/ela não quer ficar no chão brincando, ela o(a) pega. Ele/ela não quer leite, ela dá Coca-Cola Ele/ela não quer comida, ela dá chocolate. Depois ele/ela não quer ir para a escolinha, ela deixa. Ele/ela quer bater nos outros, ela deixa. Ele/ela bate nela, ela deixa. O marido às vezes o(a) re­preende, ela briga com o marido e "de­fende o seu/sua  filho(a)". Mais tarde ele/ela vai mal na escola, ela briga com os professores. Ela cuida de tudo para ele/ela: roupa, sa­patos, meias, pasta na escova para es­covar os dentes, os cadernos e livros na sacola ou mochila. Se ela faz tudo isso pensando que é amor, pode ter certe­za de que isso não é amor: é superproteção, e superproteção é sinônimo de rejeição.
Agora o filho cresceu. Ele/ela se mete em encrencas, se embriaga se droga e comete pequenos atos delinqüen­tes: falsifica assinatura, é posto para fora da classe, briga na rua, faz compras e não paga pede coisas emprestadas e não devolve. A mãe se envolve, facilita e minimiza. Se com tudo isso a mãe o (a) ino­centa em nome do amor, isso não é amor.Amar não é inocentar alguém das responsabilidades e  das conseqüências naturais de seus atos.
Ele ou ela se torna adulto e continua fazendo dívidas que a mãe paga, se envolven­do com a polícia, en­gravidando mulheres ou se engravidando cujo aborto ela paga, fazendo desfalque nas firmas que trabalha e ela repondo, casando e se desquitando e ela assumindo os fi­lhos dele para criar, cuidar e "educar". Se ela faz tudo isso em nome do amor, pode ter certeza de que isso não é amor, mas negação. Negação de perceber a realidade. O fim será trágico e triste para ambos. O amor não é assim. No amor o fim é sempre saudável, belo e produtivo.

Ilusão e compensação
Submeter-se a qualquer tipo de abuso, servilidade ou escravidão a namorado, marido ou filho, na esperança de que um dia eles  reconheçam e tenham consideração por você é uma grande ilusão. Isso nunca foi amor. O amor não é do futuro, mas é uma experiência do presente, uma experiência de recipro­cidade de consideração, respeito, reco­nhecimento e compreensão no aqui e no agora do momento existencial. A ati­tude de deixar para depois ou arrepen­der-se do antes é o canteiro onde cres­cem a culpa e a preocupação.
O amor não é amor em muitas situa­ções da vida. Vamos pensar em algu­mas delas: toda vez que você quer com­pensar um sentimento ou desejo que lhe causou um conflito de consciência, co­mo a rejeição da gravidez, nascimento de uma filha quando você queria um fi­lho, nascimento de uma criança feia quando você queria uma bonita, fazen­do tudo para ela e se submetendo a todo tipo de exploração em nome do amor, esteja certo de que isso nâo é amor, mas compensação.
Toda compensação contribui de cer­ta forma para uma deformação. Supor­tar todo tipo de injustiça, de negação de seus direitos, de anulação de suas ne­cessidades e privação de sua vontade para fazer tudo que os outros querem, na ilusão e na doce esperança de que um dia eles vão compreender e reconhe­cer é um engano. Deixar que uma pes­soa que assumiu um contrato com você  de executar uma tarefa e não a exe­cutou se saia da situação em nome do amor é enganar-se. Entrar para as dro­gas, casar-se ou submeter-se a abusos sexuais pensando em ajudar alguém em nome do amor é enganar-se, porque o amor é a antítese da exploração.
Dar tudo de si para os outros, fazer tu­do para alguém na expectativa ou inten­ção de provar o seu amor é um engano. O amor nâo exige prova. A demons­tração brota do interior de quem ama. Se há alguma coisa que não precisa prova é o amor. Quem exige de você uma pro­va, na realidade está querendo manipulá-lo.
Aceitar a traição, o espancamento fí­sico ou moral sofrer pressão e se subme­ter em nome do amor é ilusão.

Negação própria
Estar numa situação insuportável de casamento, sujeitando-se a toda espé­cie de destruição da própria dignidade e não se separar por causa dos filhos pode não ser amor pelos filhos. Violentar-se recusando dizer não quan­do se faz necessário, é um indício de fra­queza e não de  amor. Privar-se dos di­reitos e esquivar-se de pedir o que con­vém em nome do amor é, na realidade, uma autodecepção. Resumindo, qual­quer tipo de situação que impede o fluxo natural da saúde, da bondade, da beleza e da vida, expressa numa atitude ditatorial, chantagista e manipulativa não é uma situação de amor.
Muitas pessoas são adestradas desde criança a se submeterem e a aceitarem tudo; são educadas a dar o lugar delas para os outros sob as mais injustas con­dições; são criadas como indignas do ar que respiram, do espaço que ocupam, da comida que comem; são ensinadas a não ter direito, lugar, respeito próprio, brio ou dignidade. Não é de se admirar que cres­çam e continuem se resignando às mais cruéis, malvadas e bárbaras situações. São pessoas que confundem ser bobo com ser bom, ser humilhado com ser hu­milde, ser ferido com ter atenção, ser pi­sado com ser cuidado.
Pessoas assim vêm de lares desajus­tados, de pais que abusaram, de famí­lias que não cumpriram a tarefa básica de nutrir, cuidar, e alimentar afetivamen­te. Acostumaram-se à privação, nega­ção e desprezo das necessidades bási­cas de sobrevivência emocional. Preci­sam parar e pensar para descobrir que todos somos iguais em direitos e deveres.
Os direitos não são só dos outros e os deveres só nossos. Precisamos acreditar que a vida só tem sentido se formos amados e respeitados tanto quanto precisamos amar e respeitar.
Só é possível haver uma atmosfera de amor onde houver reciprocidade de di­reitos e de deveres; onde a satisfação de um contribui para a satisfação do ou­tro; onde o bem-estar de um não pode custar o preço da amargura do outro; onde o prazer de um não é conseguido às custas da dor do outro. Um ambiente marcado por dominador e submisso, carrasco e réu, senhor e escravo, não pode ser um ambiente de amor. Acei­tar um ambiente assim em nome do amor é confundir as coisas, porque nes­tas condições o amor não é amor e a união não é de duas pessoas, mas de dois objetos.
O objetivo deste texto foi só mostrar, para você, situações em que se confun­de o amor com ser explorado e mani­pulado. Não tem como objetivo dizer co­mo você deve agir. Você tem todo o di­reito de agir como desejar e quiser. Só espero que após lê-lo, você não fale em amor quando na realidade está agindo em oposição a ele e espero que você se faça a pergunta:

EU QUERO MUDAR?


9 comentários:

Mila Pires disse...

Texto esclarecedor e provocativo, levando o leitor a um pit stop em seu cotidiano.
Amar é respeitar e respeitar-se, não aceitar agressões, abusos, etc.
Como diz Fromm: " O amor é uma atividade, não um afeto passivo; é um ato de firmeza, não de fraqueza... é propriamente dar, e não receber."
Obrigada Jorge, obrigada Adilson pela importante partilha!
Beijos...com carinho...Mila.

Concha Rousia disse...

Excelente texto, uma analise profunda, como as que o Adilson nos tem acostumados... Amar, reciprocidade, responsabilidade pelo comportamento próprio... não assumir a dos demais... Amei, um texto para ler e reler, especialmente de interesse para nós, terapeutas. Obrigada Jorge por divulgar, abraços nos dois, com ternura e carinho. Concha

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

mila: um caminho de re-valorização da vida emerge dos textos do nosso Adilson: uma visão clara, com suavidade poética e espírito libertário... Abraços com carinho; jorge

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Concha: um belíssimo texto; nosso Adilson sempre cheio de vida na sua contribuição. Abraços querida, com ternura e paz; jorge

Adilson - Rio de Janeiro - Brazil disse...

Jorge meu companheiro , cheio de vida é vc e suas produçoes ...obtigado pelo espaço e pela bela formatação ....
Um grande abraço

Tânia Marques disse...

Mais uma vez o Adilson foi brilhante, e parabéns pra você também, Jorge, que oportunizou este espaço de crescimento pessoal para todos nós. Ao ler o texto fiz várias, várias e várias reflexões sobre a minha vida, parece ter sido feito pra mim. Obrigada por vocês existirem em minha vida. Vou levar para Uma nova ética humana. Beijos com carinhos multiplicados.

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Adilson: sua palavra é vida e vida plena... plural e singular: cheia de encantos; sou teu aprendiz... e me alegro nesta vivência. Abraços ternos; jorge

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Tânia, somos uma rede;
e sua ternura nos dá vida e aconchego; abraços com carinho,jorge

OceanoAzul.Sonhos disse...

Excelente texto para reflectir...

Abraço a ambos
oa.s