segunda-feira, 28 de novembro de 2011

DIÁRIO DE BORDO: AS SINGELAS LIÇÕES DO MEU QUINTAL..

                                    Jorge Bichuetti

Sentado no quintal, vejo o dia acordar... Álamos, rosas e samambaias, limoeiro e um pé de romã: minha floresta. Minha floresta é pequena e imensa: nela, moram os sonhos da imensidão... Se silencio minhas inquietações, a escuto... Seu canto é o próprio canto da vida... Ela me ensina coisas que não encontro nos livros da minha biblioteca... Um dia, me disse que para se ter uma nova vida bastava conjugar ternura e compaixão, simplicidade e solidariedade... Noutro dia, sussurrou, quase clandestina, que nada acontece de novo nos caminhos do mundo, longe do esforço perseverante e corajoso da luta... Ela gosta de exaltar o que pode o amor... Também, nunca se esquece de prevenir sobre os perigos do caminho quando seguimos despossuídos de sonhos... Um dia me argumentou que a própria tolerância já era um equívoco, que a vida é diversidade... assim, tolerar já é tentar anular a violência de uma incompreensão... E com um jeito de magistrado, explicou-me que próprio perdão era um recurso que nos tentava liberar do vício de julgar e controlar o outro, a vida na sua florescência...
Se aprende muito com a natureza...
Quando, certa vez, lhe perguntei se as estrelas não tinham ciúmes do meu imensurável amor pela Lua... A minha pequena floresta gargalhou... e disse: não, elas amam amar o amor...
Muitos acreditam, que eu perco muito tempo, contemplando e dialogando coma vida que fala e pulsa na beleza do meu quintal...
Não me importa... Aprendi ali que o próprio tempo é autoprocriativo... E que o relógio era somente uma máquina que assinalava os excrementos do tempo...
Então, comecei a tecer meu tempo...
Tempo de ler, brincar, trabalhar, cantar, cirandar, borboletear... e tempo de ser um cisco no vento, voando entre estrelas... só para ouvir as cantigas da vida que ecoam na imensidão...
Lá no meu quintal, nada consigo com ouro ou prata... A vida é permanente doação, partilha, comunhão...
Vivo feliz... eu e o meu quintal; eu a multidão dos amigos que aprendo que são também expressões singulares da vida...
Não tenho medo de estar iludido ou louco...
Um dia, sem que perceba, irei embora... partirei...
Alguns chorarão; outros, nem perceberão...
... Mas eu buscarei a floresta encantada...  Onde as matas verdejam, os passarinhos cantam, e os rios límpidos sibilam orações do tempo... Todos num só coro vivem a vida... vivem e deixam viver...
Medo, eu tenho é de que a humanidade demore a descobrir que a vida é a poesia do amor, o canto da esperança e uma batalha guerreira que afirma a vida e nega a destruição...
Só clamo que a  vida seja ouvida... para que se impeça o fim onde mora ternura solidária de sempre recomeçar...

2 comentários:

disse...

Amigo, a Natureza realmente é a escola da vida, quantas e quantas vezes ela faz intervenções em minha vida, performances que nenhum artista conseguiria fazer porque a sensibilidade e a beleza que possui é a própria arte em movimento.
Com o vento aprendo a dançar sem rumo...alçando voos...redemoinhos.
Com o sol aprendo a doar ternura...
Com a chuva eu aprendo a chorar para limpar as nódoas da amargura...
Com as flores, aprendo a exalar o perfume da humildade e da serenidade por onde eu ando...
Com os pássaros, aprendo a cantarolar ao amanhecer, cantigas de boas vindas ao novo dia que raia no horizonte...
Com as estrelas, aprendo que é necessário brilhar sempre, mesmo quando nuvens de tormenta tentam encobrir-lhe...
Com a lua...ah, com a lua...com a lua, concordo, se aprende muito...a última lição: apaixone-se por tudo, ame muito e permita ser amado, seja apaixonante!
Fluir feito riacho...
Consistência de lama...
Colorir borboletendo...
Até as folhas...quando secas...produzem um coral de vozes lindo!

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Jô, tua vida de devires inovadores e ternos é um caminho... ora, na relva orvalhada; ora, na poeira estelar... com a natureza... aprendemos e nos reinventamos, assim, seguimos na e pela alegria. Abs ternos, jorge