quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

DIÁRIO DE BORDO: SAUDADES DO NAVIO NA PARADINHA DA MANGUEIRA...

                                 Jorge Bichuetti

Não consigo contar o tempo... ele rodopia e nos leva... Parece uma eternidade, se olho e deixo falar a minha incomensurável saudade... O blog Utopia Ativa me dá vida e caminho; ninho e voos no coração da aurora... " um barco entre estrelas"... Um ninho onde vemos do quintal a revoada de passarinhos e tecemos novos ninhos com palavras e silêncios, buscando na ternura da poesia a vida, vida-passarinheira... vida que voa e sonha, que luta e resiste... e vida que por muitas vezes se vê abatida pela fúria dos vendavais... mas, num devir fênix, ressurge encantada, cantando Fernando Pessoa: "Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol"...
Quanta saudade!!!
Estive, muitas vezes, no quintal... ali, ouvi, o canto dos passarinhos, a poesia do luar e a bateria da Mangueira, Estação primeira dos meus primeiros amores... Conversei, li... sonhei... Talvez, tenha estado triste... sentia falta de dialogar, escrevendo delírios de ternura e compaixão, liberdade e vida... Com o corpo imerso na letargia do repouso, os queria presentes... como presente pulsa do mundo o sorriso de Che Guevara, a poesia de Neruda, Drummond, Pessoa, Benedetti, Bandeira, Lorca, Coralina... as canções de Cartola e Noel Rosa...
"Viver é etecétera", esperei... Novas manhãs, novos luares...
Recomposto, renovado... volto, com a emoção de que a minha ausência... tenha sido tão somente... o paradão da Mangueira... Silêncio nos tamborins, surdos, cuícas... silêncio na bateria... que silenciosa ouvia o canto do povo na roda da vida...
Sobre o que falarei?... Do espinho na rosa... Do escuro meio-dia na chuva que inunda de lágrimas as ruas e becos da humanidade...
Não, navegarei pela palavra não-inventada e nada direi...
Brincarei com os versos de argila e lhes contarei que vida é potência que voa e desanuvia o tempo na alegria de ser vida no caminho... para além das nuvens, o aconchego e acalanto das estrelas que cultivamos no horizonte azul dos sonhos partilhadas que ressoam presentificando na ausência... o abraço e o carinho das belas amizades...
Agora, meu corpo não dói... canto o sorriso do retorno...
Contudo, me dói... as dores da humanidade.. minha e tua, nossa humanidade...
Aqui, estaremos nas manhãs... na caminhada que continua...
Assim, retorno vendo-me e vendo o mundo: somos inacabamento... um conjunto de tarefas e lutas... um projeto que se desenha no horizonte clamando por nossos passos... passos na construção da cidadania e da inclusão social.. de nova suavidade...
Por isso, retorno numa oração: " que a dor não me seja indiferente; e que a morte não encontre vazio e só, sem ter feito o suficiente"...



4 comentários:

Anne disse...

Lindo texto Jorge! Estou feliz que estás "de volta". Sentimos a tua falta.

As dores da humanidade estão sempre conosco se nos deixamos ouvir e ver...

grande beijo
Anne

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Anne, com o coração... cheio de sonhos lhe abraço, dizendo-lhe do meu imenso carinho... Abraços ternos e eternos, jorge

Anônimo disse...

JORGE MARAVILHA. beijo Marta

Jorge Bichuetti - Utopia Ativa disse...

Marta, maravilhoso é sua singularidade nômade enraizada no cerrado. abraços ternos, jorge